segunda-feira, 31 de outubro de 2011
DiaD
Consideração do poema (Carlos Drummond de Andrade)
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.
Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.
Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel… Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O devir nogueiriano (Por Ciça Buendía)
terça-feira, 18 de outubro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
Eros e Psiquê
Na Ordem templária de Portugal
Eros e Psiquê - O Mito (do escritor romano Lucius Apuleius)
sábado, 24 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
Esta velha angústia
Esta velha angustia,
Esta angustia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pasadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que..., Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos: Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! Que é do teu menino? Está maluco. Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano? Está maluco.
Quem de quem fui?
Está maluco. Hoje é quem eu sou. Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, por aquele manipanso Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. Era feíssimo, era grotesco, Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer – Júpiter, Jeová, a Humanidade –
Estala, coração de vidro pintado!Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? (Fernando Pessoa) |
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Segue O Teu Destino (Série Fernando Pessoa)
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Série Fernando Pessoa (setembro-auto-presente-aniversário)
- Álvaro de Campos
- POEMA EM LINHA RETA
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Cartas de amor
- Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
- Álvaro de Campos, 21-10-1935
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Nunca te olvides de mi...
La Noche
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Fotografia é poesia?
Roland Barthes, em seu livro "A câmara clara", diz: "...diante de certas fotos, eu me desejava selvagem, sem cultura. Assim eu prosseguia, tanto sem ousar reduzir as fotos inumeráveis do mundo, quanto sem estender algumas das minhas a toda a Fotografia: em suma, eu me encontrava num impasse e, se me cabe dizer, "cientificamente" sozinho e desarmado".
sábado, 27 de agosto de 2011
Professor-Poeta-Amigo
Os “mercados”, plurais nas tardes de sábado
Gritam, evidenciando o convite...
São tantas as vozes:
Músicas, conversas e goles...
Ah! Os goles, poéticos e intensos
Porque estão fora dos “nós” acadêmicos
Regrados e polidos
Cheios de salubridades mascaradas
E verdades absolutas
Destas que não existem na feira
Nem nos botecos
Tampouco em nós
Leitores ávidos
Vorazes
E instintivos
De poesia
Da tua poesia, Hildeberto Barbosa.
domingo, 21 de agosto de 2011
Palavras do dia
[Nelson Rodrigues]
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Parafraseando o discurso de um amigo: "gosto mais que dinheiro"!
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Enclausurado
E nem o mais racional de todos os pensamentos
Ousa em mostrar-se “senhor do mundo”
Pra quê? Pra quem?
De que servem a dureza
As palavras ásperas
O tom confortável
Se no sabor da manhã
O café é amargo
Sozinho e introspectivo.
Se ao cair da tarde
O alaranjado é triste
E sem açúcar.
Se a noite, a lua...
O conhaque de Drummond
Deixa-me mais comovido que o Diabo.
Isso é ser forte?
Isso é iludir o amor?
Ou enganar-se na penumbra de um quarto
A sorver a dor?
domingo, 7 de agosto de 2011
Homenaje a Alfonsina Storni
sábado, 6 de agosto de 2011
A imagem como subversão (A Alberto Manguel)
A alma imoral (A Nilton Bonder)
O ofício
Nem sei por que insisto em escrever
Assim como insisto em beber...
É como se o gole fosse o verso
Este que está preso
Na garganta, ou melhor, no delírio
E vos sai como um vômito
Atônito e sem direção
Num esvaziar de corpo e alma
Para logo mais encher-se de novas palavras
E inebriar-se de tantos outros goles
Até sufocar-se
Sem socorro
E sem perdão.
Laços
Conversas balbuciantes
Harmonizam-se ao chorar do céu
Pelas telhas
Descem as lágrimas
De tua face de outrora
Entre as lembranças
Transmutadas em linguagem
Seguem os goles
E as batidas do tempo.
Crises se sucedem
Uma desordem se instaura
E o “lavorar” da palavra
Faz-se em versos
Destoantes e dissonantes
Neste experenciar
De vida e de morte
A vida oferece a poesia
segure-a quem quiser nas mãos
ou jogue-a na primeira lata
ou arrependa-se...
como a um passado longínquo
sinta-se como um ser incompleto
por não poder mais voltar atrás.
como a palavra dita
aquela maldita
que saiu sem permissão
tomou vida própria
e tu, ó ser primário, não tem mais controle
conforma-te com a tua ação!
ou recolha-te a tua insignificância.
Des(varios)
São tantos sons que me atormentam,
vozes...
veladas pela mesma música
que intencionalmente algo traz
e toca
grita
e dança no meu pensamento
as vezes leve
outras, aos pontapés
murros ao vento
dissipando o sentir
num rodopiar de invasão
levantando e caindo
de tom em tom
de mão em mão
sem chegar ao coração
e sem sair dele.
a canção esquizofrênica
cheia de alentos
mas provocadora
existencial
soberba de consciência
e melódicas batidas
dum estar indo...
sem sair do lugar
preso nas extremidades
do vazio que provocas
neste eterno movimento
de questões sem rosoluções
que seguem o seu passo
sem ritmo
impregnado de incompreensões
cantantes
a revolver minh´alma.
O poeta e o leitor
Insisto, ainda que biograficamente, iludir-me com as palavras
Elas insistem, ainda que poeticamente fazer-me companhia
Se há uma fidelidade entre nós
Os textos estão aí
Cheios de interpretações
Loucos por leitores ávidos
Instintivos
Maníacos por sentirem-se plenos
De poesia
E manifestações várias...
Se há uma interação entre nós
Nem eu mesmo sei
Nunca quis dizer nada.
Não há verdade. Há?
Em toda minha vida
A Literatura
Esta válvula
Que alego ser espiritual
Fez-se companheira
Jamais foi efêmera
E não obstante, me fez humano.
Demasiadamente humano
Cheio de compreensões
Ou ilusões acerca da vida.
Dessa vida, que não somente pulsa,
Mas que transcende o inefável
E se desenraiza rumo ao infinito.
Nunca fizemos um pacto
Fomos, na verdade, aliados
Na busca por um sentido
Que, de tempo em tempo, oscila em mim
Como as variações inerentes a ele – o Tempo.
São imbricações, essas que vos trago, caro leitor.
Que talvez nos aproxime
Num extasiar
Que a mim coube ressaltar,
E a ti, te faz comungar.







