quinta-feira, 22 de setembro de 2011



A insônia lava meus olhos
Com o teu silêncio.
Clamo, grito, esperneio
Ponho um outdoor em cada esquina
Do devaneio
E nem assim consigo tocar a tua canção.
Não vês que tudo é um sentir
Um sonho de alento
Da primavera que se aproxima

Flor(bela)

Eu bebo a vida, a vida,
a longos tragos...

domingo, 18 de setembro de 2011

Esta velha angústia





Esta velha angustia,
Esta angustia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
 Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pasadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino?
Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui?
Está maluco.
Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer – Júpiter, Jeová, a Humanidade –
Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Segue O Teu Destino (Série Fernando Pessoa)




Segue o teu destino,


Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.


A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.


Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.


Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.


Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

(Ricardo Reis)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Série Fernando Pessoa (setembro-auto-presente-aniversário)



      POEMA EM LINHA RETA

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,
    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?
    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


    Álvaro de Campos

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cartas de amor



      Todas as cartas de amor são
      Ridículas.
      Não seriam cartas de amor se não fossem
      Ridículas.
      Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
      Como as outras,
      Ridículas.
      As cartas de amor, se há amor,
      Têm de ser
      Ridículas.
      Mas, afinal,
      Só as criaturas que nunca escreveram
      Cartas de amor
      É que são
      Ridículas.
      Quem me dera no tempo em que escrevia
      Sem dar por isso
      Cartas de amor
      Ridículas.
      A verdade é que hoje
      As minhas memórias
      Dessas cartas de amor
      É que são
      Ridículas.
      (Todas as palavras esdrúxulas,
      Como os sentimentos esdrúxulos,
      São naturalmente
      Ridículas.)

    Álvaro de Campos, 21-10-1935

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nunca te olvides de mi...


La Noche

La noche no quiere venir
Yo quiero estar cerca de ti
Y poder robarte un beso
Y si no sabes quién es
Y poco a poco dejaré
Que me vayas descubriendo
Yo quiero estar cerca de ti
Cuando rompa el amanecer
O cuando se esté oscureciendo

Gritos de amor se oian
Una rosa seré para ti
En mis sueños respondias
Nunca te olvides de mi

Tu amor me ha robado el alma
Tu amor me ha robado el sueño
Ya mi me dejó sin nada
De la ilusión me mantengo

Soy cautivo de tus besos
Que a mi me queman por dentro
Mi ilusion y mi alegria
Ya eres toíto lo que tengo

Setembro chegou chutando meu músculo cardíaco!
Ao invés de rosas, trouxe-me espinhos
E todos estão encravados
Na minha face mais cândida.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz.